Do Barro ao Som é uma homenagem ao pintor e ceramista Manuel Cargaleiro. Um ciclo de concertos que têm como objetivo partilhar e refletir sobre a obra de Cargaleiro.
Com isso em mente, organizaremos uma tertúlia após cada concerto em cooperação com a Fundação Manuel Cargaleiro.
"Do Barro ao Som - Homenagem a Cargaleiro" é um projeto de música contemporânea baseado na obra do artista Manuel Cargaleiro, com composições originais de Carlos Marecos, Tiago Derriça, Gonçalo Lourenço, Ana Roque e Sara Carvalho, interpretadas por Clara Gonçalves (saxofones), Francisco Martins (acordeão) e Pedro Vasquinho (contrabaixo).
Este projeto procura trazer para o espaço sonoro a reflexão profunda dos processos composicionais apresentados na sua pintura e cerâmica. Assim, mais do que uma tradução da cor em som, é uma investigação sobre as formas de organização que sustentam a obra de Cargaleiro. A sua espacialidade expandida, marcada por um sistema dinâmico de diferenciação contínua, inspira um discurso musical que explora a tensão entre repetição e irregularidade, entre estrutura e desvio. O trabalho de Cargaleiro pode ser entendido como um sistema relacional, onde a repetição não implica redundância, mas a produção de variação interna. Os compositores deste projeto experimentam o universo plástico do artista, explorando a materialidade da sua obra: repetição e variação, justaposição e deslocamento.
Desta forma, a composição surge como um laboratório de perceção, no qual a lógica modular do trabalho visual se reflete no campo auditivo.
Este é um espaço de contaminação entre ver e ouvir, ampliando a estética do artista na simultaneidade expandida de sons que ecoam a polifonia cromática da sua pintura.
Inspirado pela materialidade do trabalho de Cargaleiro, este projeto não procura representar sua obra no domínio do som, mas sim operar dentro do seu paradigma compositivo.
Assim, a composição não se constrói a partir de um modelo figurativo ou representacional, mas sim como um sistema de relações análogo ao da sua prática artística, onde a materialidade do meio não determina a estrutura, mas é constituída por ela. A composição abandona a narrativa melódica ou harmónica em favor de um modelo diferencial, explorando a potencialidade cromática e o dinamismo das formas.
Não se trata de um exercício de correspondência direta entre cor e som, mas sim de coabitar o mesmo sistema diferencial, onde os processos de diferenciação contínua geram novas possibilidades de escuta e interpretação.
A partir do projeto "Do Barro ao Som - Homenagem a Cargaleiro", a atividade artística afirma-se como um espaço de reflexão, debate e interação, promovendo o pensamento crítico e inovador na sociedade.
Este processo fomenta um diálogo entre tradição e inovação, estimulando a participação ativa do público na experiência artística. Mais do que um concerto, trata-se de um espaço de contaminação entre ver e ouvir, ampliando a compreensão da arte como um sistema relacional dinâmico, onde cada elemento se transforma em interação com os demais. Assim, reforça a arte como agente de mudança, abrindo novas possibilidades de fruição e pensamento na sociedade contemporânea.